Minha fala vai no sentido da gente refletir sobre a valorização e o respeito com o artista, principalmente, o local.
A convite da cantora Ciça Chadô, fui até a Praça Comendador Müller, centro de Americana, ver o show “Encanto de Mulheres”, em homenagem ao “Dia da Mulher”. A proposta, sem dúvida, deliciosa: cinco cantoras de Americana, interpretando canções cantadas e/ou compostas por mulheres, entre elas, Rita Lee, Elis Regina, Maria Bethânia e Ana Carolina. Lá no palco, radiantes, uma energia incrível, Val Nascimento, que idealizou tudo e reuniu as meninas, Ciça Chadô, Dani Asa, Dani Morena e Zuzu.
Como tudo foi definido às pressas (ainda, na cultura, planejamento foge da realidade), as cantoras tiveram pouco tempo de ensaio (lamentável). Vozes diferentes, estilos diferentes, interpretando cantoras bem diferentes! Enfim, todas foram lá e deram o melhor de si, tenho certeza, em respeito ao público, que foi até lá para aplaudi-las.
Porém, não vi o mesmo respeito por parte dos organizadores do evento. Quem viu o show do Toquinho, aquela baita estrutura, e depois ver o que foi montado pra elas... É muito triste! Logo na primeira música o microfone de uma delas pifou. Em cada intervalo de música, uma falava: “dá um retorno aqui pra mim”. No intervalo de outra música, “1, 2, 3, testando, som”, “a minha voz não está saindo, aumenta um pouco aqui” e a outra “aqui também”, isso com o show em andamento! Teve um momento em que a coisa não ia e, embora as meninas estivessem lá, tranquilas, sorridentes, Val Nascimento fez o seguinte comentário: “se a técnica fosse mulher, o problema de som estaria resolvido”.
Eu vejo o seguinte: se tivesse uma estrutura de som decente e se o grupo tivesse ido cedo, passar o som, como deve ser feito em todo espetáculo, acredito que o show seria verdadeiramente um encanto!
Desculpem-me, meninas, pelo comentário. Sou fã de vocês, passei a admirá-las ainda mais pela coragem e pelo profissionalismo ali naquele momento, de manter o ritmo até o final, superando os problemas técnicos, mas não posso compreender essa diferença, esse descaso com o artista local.
Por que para o artista da cidade pode ser qualquer coisa? Essa foi a imagem que passou para quem viu o show do Toquinho e depois o show das meninas. No lugar daquelas enormes caixas de som, caixinhas penduradas no canto do palco. Não me conformo com isso! E estou falando somente em estrutura, porque se formos abordar outras questões, como cachê, dá outro artigo. Quem está no meio sabe que, em alguns casos, o cachê é irrisório ou o artista ouve o pedido pra ser de graça, com a “desculpa” de que estão abrindo espaço pra que ele apareça e “isto não tem preço”!
Ontem, dia 30/3, no Teatro Municipal, um ator me disse que muitas vezes tem-se a impressão de que “sobreviver da arte é crime”. Dói ouvir isso de um artista, é triste! Que possamos rever conceitos e passar a valorizar mais os artistas que temos em casa, muito deles premiadíssimos e valorizados fora daqui!
