A casa está vazia. A esposa e filhos saíram para os compromissos diários. Estão rendidos em algum ponto de congestionamento, a poucos minutos da escola e do local de trabalho dela. Com sorte, chegarão com tempo de atraso aceito pelas convenções sociais. Restam você e o espelho.
Por essa peça, você nota o primeiro sinal humano do dia. Nada em sua linda casa é tão útil como essa superfície pregada no armário de seu banheiro. É por onde observa, pelos sinais exteriores, o seu estado de espírito.
As rugas estão mais evidentes? As contas o estão deixando estressado. Os cabelos não cessam de cair? A massacrante jornada de trabalho o debilita dia-a-dia. Uma freqüente dor no peito exige a utilização de seu caríssimo plano de saúde. O seu médico, amigo de sauna, marcou uma consulta em horário extra. Mas você a desmarcou por algum motivo e vive alegando falta de tempo para cuidar de seu bem mais caro.
Todos o apreciam e entendem. Afinal, você é um sujeito exemplar. Tem um ótimo padrão de vida, um considerável circulo de relacionamentos, nem parece aquele garoto que começou do nada há uns anos atrás. Nisso reside a sua vaidade. Por conta do seu talento, você alçou vôos na pirâmide social.
O celular multiuso exige a saída imediata. Há ligações perdidas e alertas de compromissos. No carro você canta, xinga o motorista adversário, fecha a cara ao flanelinha, escuta o noticiário sobre política e mercado financeiro.
Na clausura do automóvel se recorda que dera apenas uma boa noite à jovem esposa na noite anterior. Ela estava maravilhosa naquele baby doll que adquirira para aquela viagem que você desmarcou em cima da hora. Em seu rosto angelical, você notou um senho de preocupação que atribuiu à tripla jornada trabalho-casa-filhos.
Você sente o desejo de traí-la, teve até alguns encontros esporádicos, tal como um precoce adolescente atual. Tirando os amigos de futebol, ninguém sabe disso, é questão de estado, você não quer manchar sua reputação e por tudo a perder.
Um longo dia o seu. Todos admiram sua capacidade de resolver tantas questões em tão pouco tempo. Você indica livros de auto-ajuda – que inconfessadamente conhece apenas pelos títulos - àqueles que dizem apreciar o seu estilo de trabalho.
Você é pragmático e versátil, nunca perde a classe; mesmo diante de situações inusitadas sabe conduzir bem as coisas, afinal, tem MBA, é conferencista, já foi entrevistado por revistas especializadas. Você parece o Clark Kent na versão super-homem. As mulheres o assediam, embora pertença à geração Woodstock. Os homens o elogiam como um cyber-sujeito.
Você chegou cedo a casa. Quis fazer surpresa à amada e “esquecida” esposa. Os filhos se alegraram. Correram para se esconder, como brincavam antigamente. A mulher se apressou em preparar um prato especial, um jantar à luz de velas, como a muito não havia.
Estava demasiadamente linda, tal quando a conheceu naquele congresso internacional, onde trabalhara como hostess. Fazia tempo que você não sentia tanta alegria num único ambiente.
A televisão, em caráter extraordinário, informava a morte de um executivo não identificado, vítima de bala perdida em assalto na praça de pedágio próxima ao seu condomínio. Você reforçou a atenção ao apresentador mencionar o horário do lamentável desfecho. Todos notaram a palidez de seu rosto ao buscar freneticamente o bilhete da cabine.
