Sempre achei o trânsito de Americana comparável a um pátio de fábrica. Uma bagunça generalizada provocada pela falta de planejamento adequado. Não são necessários grandes investimentos para se reverter esse quadro, o que falta é uma crônica falta de criatividade do Poder Público. Parece-me que a única preocupação é com a Avenida Brasil, considerada um cartão postal da cidade e em cuja região reside boa parte da elite local. O restante é feio, mal-acabado e inseguro.
Tome-se, por exemplo, o desafio imposto ao pedestre de caminhar pela cidade. Ninguém respeita as faixas de pedestre e a fiscalização de trânsito é praticamente inexistente, as calçadas invariavelmente são apertadas e esburacadas, comportando lixo e até móveis e outros objetos velhos, há uma infinidade de terrenos baldios tomados pelo mato alto, materiais de construção invadem as vias públicas e o passeio público.
Em alguns trechos da cidade ocorrem longos congestionamentos imagináveis somente em grandes centros urbanos. Nos momentos de maior movimento tem-se a impressão de estar-se trafegando pelas marginais Tietê e Pinheiros da capital paulista. A diferença é que lá basta o motorista sinalizar uma manobra para que todos o respeitem. Aqui, mesmo sinalizando, o condutor é alvo de buzinadas, xingamentos e ameaças.
Algumas vias se transformaram em verdadeiras pistas de corrida, onde cada um tenta mostrar que o seu carro é o melhor, tecnologicamente superior ao do “adversário”. Um caos, que já faz parte da “cultura” local, diante da passividade da população. E a desculpa do número “invejável” de automóveis em circulação torna incorrigível esse quadro de degradação urbana.
Como pode uma cidade assim pensar em desenvolvimento, captação de investimentos, com geração de riqueza e empregabilidade? Sabe-se que a arrecadação vem caindo ano a ano e o trânsito é uma variável determinante para esse problema. Grandes e tradicionais indústrias continuam ocupando áreas centrais, dificultando o escoamento da produção. A cidade, dividida pela linha do trem, assiste a esse estrangulamento sem enxergar perspectivas de mudanças.
Sou natural de Marília, onde a linha férrea também corta toda a extensão do município, inclusive a área central. A diferença é que lá existem passagens de nível suficientes ao perfeito escoamento do trânsito, e a população não vê essa interferência como um grande incômodo. Lá, a cidade é tratada com unicidade, sem o maniqueísmo local, que divide Americana em duas realidades opostas em função da linha férrea.
Americana, ainda incomodada com a tromba d,água da década de 40, precisa por os pés no Século XXI. A velha oligarquia está deixando um legado incômodo ao desenvolvimento sustentado da cidade. Para superar esse quadro é preciso queimar a gordura da presunção e do atraso e por a cidade nos trilhos.
Uma lipoaspiração mental lhe traria bons benefícios, muito mais que a inútil e inoportuna discussão sobre as gigantescas estátuas do portal da cidade. É ali, bem debaixo daquelas exuberantes barrigas, que começa o caos. As estrias e celulites que enfeiam a antiga Vila estão é logo adiante, à espera de uma urgente e eficaz intervenção cirúrgica.
